sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pela lente que se vê

Texto publicado originalmente no blog O Grande Espírito
http://o-grandeespirito.blogspot.com.br/

Parar para pensar em postar um texto em um blog (qualquer texto, qualquer blog) me faz imaginar aquelas cartas deixadas dentro de garrafas, soltas ao mar, para qualquer um que as encontrassem à deriva, sem ter como saber quem seria o leitor ou se quem as encontrasse iria realmente acompanhar mais de duas linhas do que foi escrito... Nisso, decidi escrever como se estivesse fazendo uma dessas cartas.

Bem, caro amigo que está me lendo agora, neste momento eu não sei mais onde estou. Se eu tive um norte na minha vida, que me apontasse a direção para onde eu deveria seguir para continuar segura (isto é, continuar segura dentro da minha aconchegante zona de conforto), ele sumiu - se um dia ele existiu realmente, é claro. Nem mesmo sei te dizer quem exatamente eu costumava ser antes, há não muito tempo atrás.

Não, não estou delirando. Deixe-me explicar. É provável, na verdade, que eu pudesse te falar de mim de um modo bem aceitável e compreensível: como eu era, o que eu fazia ou do que eu costumava gostar de fazer.

Mas, nesse exato momento, se eu for franca com você, eu digo simplesmente que eu não sei te dar uma resposta em que eu pudesse depositar total confiança como algo sólido e certo nesse sentido.

Não que possa ser tudo mentira (embora, você disso também não possa ter certeza). Mas me parece tudo muito solúvel no momento, entende?

Também não posso afirmar que isto que eu escrevo é a completa verdade, pois talvez eu não acredite nisso de “completa verdade”. Então, se você continuar lendo, apenas encare tudo isso que eu te falo como uma simples possibilidade. Sem compromissos.

E por que estou escrevendo isso?! Não sei, penso que talvez esta seja a última carta que escrevo na vida (como posso ter certeza que ela realmente não é, não é mesmo?). De todo modo, como já dizia Jack Kerouac: “eu não tenho nada para oferecer a ninguém, exceto minha própria confusão”, só isso.

Mas voltando ao fato de não poder te dar uma resposta sobre quem eu era. Bem, só que hoje é difícil pensar no passado. Não que seja impossível também. Deixe-me tentar explicar: Eu penso em uma situação, ok, mas logo que eu penso nela, me vem a pergunta se isto foi assim mesmo que aconteceu ou se assim é só como eu me lembro dela.

Sim, pois a memória é seletiva e manipulável. Ela é mutável. E se aquilo que eu vivi não corresponde ao jeito como eu me lembro? E se aconteceu de outro modo? E se esse outro modo for o completo avesso das minhas lembranças? E se formos além e se pondero ao mesmo tempo e em igual consideração ambas as possibilidades completamente opostas, o que acontece?

Posso te afirmar que elas simplesmente se eliminam. Porque, como poderiam dizer os filósofos (ou pelo menos o meu professor de introdução à Filosofia da faculdade), você ou algo não pode ser e não-ser ao mesmo tempo, pois isso é ilógico. Sim, nossa mente tem suas limitações... E acredite, são muitas.

É claro que aqui estou falando de ideias. Não estou discutindo sobre você ser ou não-ser qualquer coisa que seja, mas sobre a ideia de “você” ou de “eu”. Essas representações, só isso. Já que essa seria outra discussão que vai bem além dessa nossa conversa ou talvez também da lógica – limitada demais, limitante demais.

Enfim, veja bem, uma ideia elimina a outra, pois são absurdamente opostas, logo, o que sobraria? Bom, acho que isso eu posso te dizer, de acordo com a minha experiência, que o que resta é o nada onde todas estas possibilidades flutuam.

O que eu poderia simplesmente chamar de caos, embora não me pareça ser a mesma coisa. Me soa mais como um mar de ideias possíveis/impossíveis, onde tudo que eu possa pensar se afoga na imensidão da relatividade. Pois todas as respostas são válidas e/ou inválidas, dependendo de como você as olha.

Então, vamos lá, quero que você me siga na minha perspectiva, certo? Ou pode simplesmente pular do barco, tanto faz. Mas vamos viajar um pouco e talvez até naufragar também, porque acho válido.

Nisso, imagine o seguinte: você está numa sala e esta sala não tem paredes, mesmo que você saiba que está bem no centro dela. Nela você não consegue precisar o tempo, o que faz com que você cogite que ele é fluido demais ou algo assim, nem tem como medir muito bem o espaço.

Ao seu redor existem vários binóculos flutuando no ar, sem razão, só estão ali daquele jeito. Os binóculos têm muitos tamanhos e formatos, eles estão soltos e apontados em diferentes direções. Você se aproxima de um, depois de outro. Acontece que apesar das diferentes direções, através deles você só pode observar a mesma cena, em todos, embora você não demore a perceber que através deles você vê tudo de um modo absurdamente diferente.

Digamos que você experimente três deles. No primeiro, você vê tudo com aspecto envelhecido, tipo amarelado e embaçado, como se o vidro estivesse trincado, te dando uma sensação aconchegante, mas deixando um sabor levemente ácido na boca. No segundo, parece que tudo fica distante de você, em tom azulado; você quase pode sentir uma brisa no rosto e uma sensação como se acabasse de comer algo cremoso. No terceiro, tudo é avermelhado num tom tão forte que você mal consegue distinguir uma coisa da outra; seu coração parece mais acelerado quando olha através deles e você se sente meio zonzo, embora o frio na sua pele te conforte. Há muitos outros binóculos, é claro, mas apenas esses te chamam atenção para experimentar, nesse momento.

Bem, você deve ter entendido. É a mesmíssima situação, mas a maneira de perceber é distinta. Se você muda a perspectiva, você muda todo o sabor da experiência. E todos os binóculos te mostram algo válido, belo, mas relativo. Pois tudo depende das lentes dos binóculos e/ou dos seus filtros.

Bom, e por que essa história toda? Só para te falar do passado, como eu o percebo nesse momento: esse caldo caótico e surreal de sonhos, lembranças, ideias, delírios misturados e con-fundidos.

Esses dias eu estava assistindo um filme e um dos personagens diz que “o passado é uma história que contamos a nós mesmos” e fiquei pensando como isso fazia sentido para mim. O passado seria uma ficção, uma grande ficção! Seria talvez uma invenção construída nesse nosso caótico caldo. Receita pessoal carregada de temperos e especiarias diversas, os quais nós sempre os escolhemos (consciente e inconscientemente), tanto quanto escolhemos os binóculos que usamos para ver o mundo.

Dentro desse contexto todo é que chego a pensar que aquela pessoa que existiu um dia, a quem já me referi como “eu”, não existe mais, a não ser, é claro, nas minhas ficções e nas ficções alheias, onde esse “eu” me parece mais irreal ainda. Ela é uma representação, uma ideia.

Logo, eu posso afirmar que o passado não existe de fato, certo? É ficção, ao menos nesse meu ponto de vista. O “eu” que um dia fui ou acreditei ser, inclusive os outros ao meu redor... são representações! São apenas o que eu construí mentalmente com as informações às quais tive acesso por observação ou convivência.

Então, me diga, por que deveria me preocupar se naufrago às vezes nesse oceano bravio, mas tão doce?