segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Quando os castelos caem...

Em certos momentos, eu percebo que tudo fica mais claro. Como se eu me expandisse pelo espaço ou como se o corpo não fosse, naquele momento, uma fronteira, um limite para mim. Quando isso acontece, sinto uma tendência a silenciar tudo e eu sinto que a vacuidade e o silêncio sempre estiveram aqui em mim. Isso pra mim, no momento, é o meu conceito de paz!
É engraçado como uma pessoa (eu nesse caso) que sempre teve certo déficit de atenção e/ou uma mente super barulhenta, agitada mesmo, agora possa falar de silêncio mental. Para mim ainda soa estranho, vou confessar. Mas é realmente delicioso, quase viciante mesmo ficar em silêncio ouvindo os sons da natureza.
Lembro que a primeira vez que senti isso, foi durante uma meditação (embora na época eu ainda não soubesse meditar, mas na falta de uma palavra melhor...). Eu parava e ficava um tempo tentando me concentrar, mas era extremamente difícil. Quase sempre eu ficava ali por um tempo, mas ouvindo o ruído cerebral até cansar e ir fazer outra coisa. Um dia, puft! Lá estava o vazio. Completo vazio. Nada de nada. Eu parei e observei maravilhada.
Hoje eu consigo perceber o processo, sabe, minha tensão ao silêncio me levou a perceber que ele já estava lá. Apenas precisava ser redescoberto. Simples! Mas não é um processo de entendimento do silêncio, mas de vivência. Viver o silêncio. Você pode falar o que quiser sobre, escrever livros, ministrar palestras ou cursos. Mas se fica num nível apenas mental, bom, não vale muita coisa, ao meu ver.
Conceitos (como o conceito de paz, por exemplo) são maleáveis e plásticos, podem ser desconstruídos, reconstruídos. Por mais lindo que seja falar deles. Conceitos são castelos de cartas fadados a cair – por mais que pareçam sólidos ou até que possam ficar ali de pé por anos ou séculos, um dia caem ou são reescritos para fazerem sentido aos contemporâneos.
Mas viver. Ah, se lançar a viver é outra coisa. Estou aprendendo isto ainda, mas me maravilho a cada curva dessa estrada. Confesso até que tomei certo gosto por fazer desmoronar meus castelos de cartas.
No início é doloroso. Nossa, quanto trabalho pra construí-los. E como eram belos de se ver. Além do mais, realmente dava medo ao senti-los balançando às vezes. E se caiam... Ahh!
Conceitos criam raízes profundas, sabe, e geralmente nos acostumamos de tal forma a eles que tendemos a nos confundir. Isto é, chegamos a pensar que eles são parte de nós, que sempre estiveram aqui, que são intrínsecos. Mas não são. Nenhum deles é.
Mas como eu disse acima, conceitos são fadados a cair e no momento em que esses conceitos, essas ideias ou ideais de um modo geral caem, realmente pode ser doloroso. Até cheguei a ficar de luto por alguns deles (quem nunca?).
Mas existe algo depois que nossos castelos de cartas caem, depois que a poeira baixou e você percebe que algo realmente se quebrou e não tem mais volta. Dentro daquela sensação de não ter onde se apoiar, do nervoso e/ou medinho de continuar sem o seu castelinho de pé, que afinal te dava sempre um norte... Bom, existe algo.
E este algo é meio difícil de nomear. Posso descrever como algo leve. Como se eu estivesse carregando malas e malas e de repente estivesse mais solta. Como se o próprio corpo estivesse mais liberado de carga.
Pensando bem, acredito que não é exatamente correto falar que “existe algo”, mas que inexiste algo.  
Embora, de modo geral, isto só se descubra quando você tem coragem o suficiente para deixar a poeira baixar, sem construir desesperadamente outro castelo de cartas para substituir o primeiro.
Sim, porque o medo do que você desconhece, até certo ponto, sempre está à espreita. E entendo como é complicado dar os primeiros passos quando não se tem certeza se existe algum chão para pisar. Quer dizer, seus conceitos/ideais afirmavam ter chão firme ali, por isso se vai em frente de modo mais confiante – Pode até não ter o tal do chão, mas você confia.
Bom, penso que tendemos a ver nossos ideais quase sempre como nobres, retos e louváveis por uma razão ou outra. São geralmente encarados como algo pelo qual vale a pena lutar, que deve ser defendido! Parecem sólidos, por fim.
Por mais que estes ideais ou conceitos (ou pré-conceitos, leia como quiser) possam estar (intencionalmente ou não) distorcidos ou mal interpretados mesmo, por mais que no fundo você saiba que existe a possibilidade deste ou daquele conceito na sua vida não ser tão nobre assim, mas certamente eles dão a confiança de seguir seja lá pra onde te levem.
Sejamos sinceros, é preciso mesmo ter coragem para dar um passo às cegas, confiando apenas que o próximo passo estará correto independe de como ele seja dado. Digo mais, é preciso fé (mas não vou entrar nesta questão, este é um conceito delicado e distorcido demais por aí para o meu gosto).
Então, o que eu tenho a falar com tudo isso, afinal? Que tal experimentar nos lançar à vivência? Seja ela da paz, da alegria, de Deus, do êxtase (que tanto falam por aí) ou de qualquer outra “coisa”. Sem se contentar com o que se descreve, vamos lá viver isso para descobrir por nós mesmos, sem mapas, sem guias, sem conceitos pré-concebidos.
Só pra variar, vamos deixar nossos castelos de cartas desmoronarem se eles têm que desmoronar e vamos descobrir o que nos espera depois da curva na estrada.  

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Por que escrever mesmo?

Eu sempre fui apaixonada por revisitar o passado, viajar por possibilidades, como um jogo de detetive tipo Sherlock Holmes sempre buscando pistas, descobrindo e solucionando um mistério, gostava de jogar com a História. Nossa como fazia sentido! Era linear e havia as construções, desconstruções e reconstruções em diferentes pontos de vista. 

Mas como isso me cansa agora! Ainda gosto, mas cansa. Provavelmente por que não levo as discussões sobre isso mais a sério que sobre qualquer ficção... Embora a causa principal - talvez - seja a que não vejo mais o passado da mesma forma.

De modo geral, nós lemos e ouvimos que só existe o agora, mas penso que só hoje eu esteja começando a realmente viver isso - já que uma coisa completamente diferente é apenas compreender intelectualmente isso. E vivo quase que por falta de opção mesmo.


Me parece que apenas existe de fato o que eu vivo agora e todo o resto soa irreal. Tento me lembrar do que vivi, mas no fim... soa como ficção – salvo algumas lembranças mais vívidas aqui e ali.


Em certos momentos tudo parece tão sem sentido que até as coisas mais óbvias e cotidianas viram só conceitos e aí, bem, aí tudo parece a ponto de deslizar para o não sentido e na minha percepção tudo parece perder literalmente sua solidez. Como se a coisa fosse tão fluída quanto o conceito que nós empregamos a ela. Tão maleável que se dissolve.

E nisso é que sinto a necessidade de escrever, porque primeiro as lembranças tendem a serem esquecidas cada vez mais rápido; e, em segundo lugar, o passado além de soar ficcional em boa parte do tempo, ele não me parece mais linear, ao menos como eu o costumava perceber.

Hoje eu tendo a ver o passado como um grande mural e tudo fica lá colado. Anotações, fotos, postites coloridos e desenhos pela metade espalhados com ou sem referências do que seja aquilo, todos meio misturados, alguns até quase se mesclando. Flertando com o caos constantemente. 


Então eu vivo algo ontem e isto vai para o meu mural e fica lá ao lado de coisas que vivi há anos. E de repente não sei mais o que vivi ontem ou semana passada ou até mesmo se é uma lembrança de algo que sonhei.

Por isso me propus a escrever de forma relativamente periódica para me lembrar de coisas que eu vivo de modo geral, de algumas experiências que são verdadeiros bálsamos (para mim, pelo menos). Escrever não no sentido de catalogar ou qualquer coisa do tipo, mas para me lembrar que eu vivo algumas coisas que 
realmente valem a pena serem lembradas como um pouco de lenha para reavivar uma fogueira. 

E aproveitar a situação para compartilhar tudo isso também – Isto, claro, se eu me lembrar de escrever. 


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pela lente que se vê

Texto publicado originalmente no blog O Grande Espírito
http://o-grandeespirito.blogspot.com.br/

Parar para pensar em postar um texto em um blog (qualquer texto, qualquer blog) me faz imaginar aquelas cartas deixadas dentro de garrafas, soltas ao mar, para qualquer um que as encontrassem à deriva, sem ter como saber quem seria o leitor ou se quem as encontrasse iria realmente acompanhar mais de duas linhas do que foi escrito... Nisso, decidi escrever como se estivesse fazendo uma dessas cartas.

Bem, caro amigo que está me lendo agora, neste momento eu não sei mais onde estou. Se eu tive um norte na minha vida, que me apontasse a direção para onde eu deveria seguir para continuar segura (isto é, continuar segura dentro da minha aconchegante zona de conforto), ele sumiu - se um dia ele existiu realmente, é claro. Nem mesmo sei te dizer quem exatamente eu costumava ser antes, há não muito tempo atrás.

Não, não estou delirando. Deixe-me explicar. É provável, na verdade, que eu pudesse te falar de mim de um modo bem aceitável e compreensível: como eu era, o que eu fazia ou do que eu costumava gostar de fazer.

Mas, nesse exato momento, se eu for franca com você, eu digo simplesmente que eu não sei te dar uma resposta em que eu pudesse depositar total confiança como algo sólido e certo nesse sentido.

Não que possa ser tudo mentira (embora, você disso também não possa ter certeza). Mas me parece tudo muito solúvel no momento, entende?

Também não posso afirmar que isto que eu escrevo é a completa verdade, pois talvez eu não acredite nisso de “completa verdade”. Então, se você continuar lendo, apenas encare tudo isso que eu te falo como uma simples possibilidade. Sem compromissos.

E por que estou escrevendo isso?! Não sei, penso que talvez esta seja a última carta que escrevo na vida (como posso ter certeza que ela realmente não é, não é mesmo?). De todo modo, como já dizia Jack Kerouac: “eu não tenho nada para oferecer a ninguém, exceto minha própria confusão”, só isso.

Mas voltando ao fato de não poder te dar uma resposta sobre quem eu era. Bem, só que hoje é difícil pensar no passado. Não que seja impossível também. Deixe-me tentar explicar: Eu penso em uma situação, ok, mas logo que eu penso nela, me vem a pergunta se isto foi assim mesmo que aconteceu ou se assim é só como eu me lembro dela.

Sim, pois a memória é seletiva e manipulável. Ela é mutável. E se aquilo que eu vivi não corresponde ao jeito como eu me lembro? E se aconteceu de outro modo? E se esse outro modo for o completo avesso das minhas lembranças? E se formos além e se pondero ao mesmo tempo e em igual consideração ambas as possibilidades completamente opostas, o que acontece?

Posso te afirmar que elas simplesmente se eliminam. Porque, como poderiam dizer os filósofos (ou pelo menos o meu professor de introdução à Filosofia da faculdade), você ou algo não pode ser e não-ser ao mesmo tempo, pois isso é ilógico. Sim, nossa mente tem suas limitações... E acredite, são muitas.

É claro que aqui estou falando de ideias. Não estou discutindo sobre você ser ou não-ser qualquer coisa que seja, mas sobre a ideia de “você” ou de “eu”. Essas representações, só isso. Já que essa seria outra discussão que vai bem além dessa nossa conversa ou talvez também da lógica – limitada demais, limitante demais.

Enfim, veja bem, uma ideia elimina a outra, pois são absurdamente opostas, logo, o que sobraria? Bom, acho que isso eu posso te dizer, de acordo com a minha experiência, que o que resta é o nada onde todas estas possibilidades flutuam.

O que eu poderia simplesmente chamar de caos, embora não me pareça ser a mesma coisa. Me soa mais como um mar de ideias possíveis/impossíveis, onde tudo que eu possa pensar se afoga na imensidão da relatividade. Pois todas as respostas são válidas e/ou inválidas, dependendo de como você as olha.

Então, vamos lá, quero que você me siga na minha perspectiva, certo? Ou pode simplesmente pular do barco, tanto faz. Mas vamos viajar um pouco e talvez até naufragar também, porque acho válido.

Nisso, imagine o seguinte: você está numa sala e esta sala não tem paredes, mesmo que você saiba que está bem no centro dela. Nela você não consegue precisar o tempo, o que faz com que você cogite que ele é fluido demais ou algo assim, nem tem como medir muito bem o espaço.

Ao seu redor existem vários binóculos flutuando no ar, sem razão, só estão ali daquele jeito. Os binóculos têm muitos tamanhos e formatos, eles estão soltos e apontados em diferentes direções. Você se aproxima de um, depois de outro. Acontece que apesar das diferentes direções, através deles você só pode observar a mesma cena, em todos, embora você não demore a perceber que através deles você vê tudo de um modo absurdamente diferente.

Digamos que você experimente três deles. No primeiro, você vê tudo com aspecto envelhecido, tipo amarelado e embaçado, como se o vidro estivesse trincado, te dando uma sensação aconchegante, mas deixando um sabor levemente ácido na boca. No segundo, parece que tudo fica distante de você, em tom azulado; você quase pode sentir uma brisa no rosto e uma sensação como se acabasse de comer algo cremoso. No terceiro, tudo é avermelhado num tom tão forte que você mal consegue distinguir uma coisa da outra; seu coração parece mais acelerado quando olha através deles e você se sente meio zonzo, embora o frio na sua pele te conforte. Há muitos outros binóculos, é claro, mas apenas esses te chamam atenção para experimentar, nesse momento.

Bem, você deve ter entendido. É a mesmíssima situação, mas a maneira de perceber é distinta. Se você muda a perspectiva, você muda todo o sabor da experiência. E todos os binóculos te mostram algo válido, belo, mas relativo. Pois tudo depende das lentes dos binóculos e/ou dos seus filtros.

Bom, e por que essa história toda? Só para te falar do passado, como eu o percebo nesse momento: esse caldo caótico e surreal de sonhos, lembranças, ideias, delírios misturados e con-fundidos.

Esses dias eu estava assistindo um filme e um dos personagens diz que “o passado é uma história que contamos a nós mesmos” e fiquei pensando como isso fazia sentido para mim. O passado seria uma ficção, uma grande ficção! Seria talvez uma invenção construída nesse nosso caótico caldo. Receita pessoal carregada de temperos e especiarias diversas, os quais nós sempre os escolhemos (consciente e inconscientemente), tanto quanto escolhemos os binóculos que usamos para ver o mundo.

Dentro desse contexto todo é que chego a pensar que aquela pessoa que existiu um dia, a quem já me referi como “eu”, não existe mais, a não ser, é claro, nas minhas ficções e nas ficções alheias, onde esse “eu” me parece mais irreal ainda. Ela é uma representação, uma ideia.

Logo, eu posso afirmar que o passado não existe de fato, certo? É ficção, ao menos nesse meu ponto de vista. O “eu” que um dia fui ou acreditei ser, inclusive os outros ao meu redor... são representações! São apenas o que eu construí mentalmente com as informações às quais tive acesso por observação ou convivência.

Então, me diga, por que deveria me preocupar se naufrago às vezes nesse oceano bravio, mas tão doce?