Em certos momentos, eu percebo que tudo fica mais claro. Como se eu me expandisse pelo espaço ou como se o corpo não fosse, naquele momento, uma fronteira, um limite para mim. Quando isso acontece, sinto uma tendência a silenciar tudo e eu sinto que a vacuidade e o silêncio sempre estiveram aqui em mim. Isso pra mim, no momento, é o meu conceito de paz!
É engraçado como uma pessoa (eu nesse caso) que sempre teve certo déficit de atenção e/ou uma mente super barulhenta, agitada mesmo, agora possa falar de silêncio mental. Para mim ainda soa estranho, vou confessar. Mas é realmente delicioso, quase viciante mesmo ficar em silêncio ouvindo os sons da natureza.
Lembro que a primeira vez que senti isso, foi durante uma meditação (embora na época eu ainda não soubesse meditar, mas na falta de uma palavra melhor...). Eu parava e ficava um tempo tentando me concentrar, mas era extremamente difícil. Quase sempre eu ficava ali por um tempo, mas ouvindo o ruído cerebral até cansar e ir fazer outra coisa. Um dia, puft! Lá estava o vazio. Completo vazio. Nada de nada. Eu parei e observei maravilhada.
Hoje eu consigo perceber o processo, sabe, minha tensão ao silêncio me levou a perceber que ele já estava lá. Apenas precisava ser redescoberto. Simples! Mas não é um processo de entendimento do silêncio, mas de vivência. Viver o silêncio. Você pode falar o que quiser sobre, escrever livros, ministrar palestras ou cursos. Mas se fica num nível apenas mental, bom, não vale muita coisa, ao meu ver.
Conceitos (como o conceito de paz, por exemplo) são maleáveis e plásticos, podem ser desconstruídos, reconstruídos. Por mais lindo que seja falar deles. Conceitos são castelos de cartas fadados a cair – por mais que pareçam sólidos ou até que possam ficar ali de pé por anos ou séculos, um dia caem ou são reescritos para fazerem sentido aos contemporâneos.
Mas viver. Ah, se lançar a viver é outra coisa. Estou aprendendo isto ainda, mas me maravilho a cada curva dessa estrada. Confesso até que tomei certo gosto por fazer desmoronar meus castelos de cartas.
No início é doloroso. Nossa, quanto trabalho pra construí-los. E como eram belos de se ver. Além do mais, realmente dava medo ao senti-los balançando às vezes. E se caiam... Ahh!
Conceitos criam raízes profundas, sabe, e geralmente nos acostumamos de tal forma a eles que tendemos a nos confundir. Isto é, chegamos a pensar que eles são parte de nós, que sempre estiveram aqui, que são intrínsecos. Mas não são. Nenhum deles é.
Mas como eu disse acima, conceitos são fadados a cair e no momento em que esses conceitos, essas ideias ou ideais de um modo geral caem, realmente pode ser doloroso. Até cheguei a ficar de luto por alguns deles (quem nunca?).
Mas existe algo depois que nossos castelos de cartas caem, depois que a poeira baixou e você percebe que algo realmente se quebrou e não tem mais volta. Dentro daquela sensação de não ter onde se apoiar, do nervoso e/ou medinho de continuar sem o seu castelinho de pé, que afinal te dava sempre um norte... Bom, existe algo.
E este algo é meio difícil de nomear. Posso descrever como algo leve. Como se eu estivesse carregando malas e malas e de repente estivesse mais solta. Como se o próprio corpo estivesse mais liberado de carga.
Pensando bem, acredito que não é exatamente correto falar que “existe algo”, mas que inexiste algo.
Embora, de modo geral, isto só se descubra quando você tem coragem o suficiente para deixar a poeira baixar, sem construir desesperadamente outro castelo de cartas para substituir o primeiro.
Sim, porque o medo do que você desconhece, até certo ponto, sempre está à espreita. E entendo como é complicado dar os primeiros passos quando não se tem certeza se existe algum chão para pisar. Quer dizer, seus conceitos/ideais afirmavam ter chão firme ali, por isso se vai em frente de modo mais confiante – Pode até não ter o tal do chão, mas você confia.
Bom, penso que tendemos a ver nossos ideais quase sempre como nobres, retos e louváveis por uma razão ou outra. São geralmente encarados como algo pelo qual vale a pena lutar, que deve ser defendido! Parecem sólidos, por fim.
Por mais que estes ideais ou conceitos (ou pré-conceitos, leia como quiser) possam estar (intencionalmente ou não) distorcidos ou mal interpretados mesmo, por mais que no fundo você saiba que existe a possibilidade deste ou daquele conceito na sua vida não ser tão nobre assim, mas certamente eles dão a confiança de seguir seja lá pra onde te levem.
Sejamos sinceros, é preciso mesmo ter coragem para dar um passo às cegas, confiando apenas que o próximo passo estará correto independe de como ele seja dado. Digo mais, é preciso fé (mas não vou entrar nesta questão, este é um conceito delicado e distorcido demais por aí para o meu gosto).
Então, o que eu tenho a falar com tudo isso, afinal? Que tal experimentar nos lançar à vivência? Seja ela da paz, da alegria, de Deus, do êxtase (que tanto falam por aí) ou de qualquer outra “coisa”. Sem se contentar com o que se descreve, vamos lá viver isso para descobrir por nós mesmos, sem mapas, sem guias, sem conceitos pré-concebidos.
Só pra variar, vamos deixar nossos castelos de cartas desmoronarem se eles têm que desmoronar e vamos descobrir o que nos espera depois da curva na estrada.
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