quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Cálice negro

Acredito que escrever em forma de poema é mais fácil que dissertar e argumentar alguma ideia. Talvez, sim, isso seja uma preguicinha mental, mas tem algo além disso. Quando você escreve sem se preocupar em se faz ou não sentido, as palavras simplesmente fluem e, em certos momentos complicados e/ou quando o que eu quero dizer é simplesmente difícil de ser exprimido, bem, a poesia pode ser uma grande válvula de escape (ou de exorcismo, às vezes). Nisso, esse é o primeiro (não sei se o único, vamos ver) que publico aqui: 


De um cálice negro bebi outra noite,
nele havia uma poção azul intensa.
Senti que bebia de mim mesma
e ali encontrei um sabor de vacuidade
- o mesmo que outrora ouvi no vento.
A bebida possuía um cheiro de céu noturno,
me fazendo cantar em uma língua nova.
Meu peito queimava, chamas altas, intensas.
Via faíscas brancas pulsando ao meu redor.
Me embriaguei deste cálice e dancei contigo,
seu perfume transbordava de tudo
e inebriados, girávamos e cantávamos
As ametistas que cresciam de mim para ti
(ou seria o contrário?).
Me perdi de mim mesma
e me encontrei deste modo.
O mundo mudou suas vestes?
Ou foi apenas eu que mudei as minhas?
"Veja, veja! O sol já nasceu!", você dizia.
Eu apenas acreditava na aurora,
embora nada ainda pudesse ver.
"Mergulha, mergulha mais profundamente!
Solta, solta essa loucura de não ver!
Vem, esse é o sol que cresce em nós".
Perdoei meus olhos ainda cegos,
aceitei meus olhos ainda cegos.
E só aí descobri um outro modo de ver.
E vi para além do sol,
E vi para além de mim.